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Brasil amplia arsenal contra a dengue com duas vacinas no SUS

Em 03/04/26 13:06. Atualizada em 03/04/26 15:18.

QDenga e agora Butantan-DV chegam à rede pública respaldadas por ensaios clínicos de larga escala e alta eficácia 

Texto Marina Sousa e Ana Laura de Sene Amâncio Zara


A dengue tem sido um dos maiores desafios de saúde pública do Brasil nas últimas décadas, com 26 milhões de casos prováveis notificados e cerca de 17.700 óbitos entre 2000 e 2025. A expansão do mosquito vetor fez com que a doença, antes concentrada em algumas regiões, se tornasse presente em todo o país, acometendo indivíduos de todas as idades. 

O Brasil deu um passo significativo no enfrentamento da dengue com a incorporação de duas vacinas ao Sistema Único de Saúde (SUS): a QDenga1, da farmacêutica japonesa Takeda, disponível no SUS desde 20242, e a Butantan-DV3,4, desenvolvida integralmente no Brasil pelo Instituto Butantan e incorporada ao SUS5 em 2026. Ambas são tetravalentes e sustentadas por estudos clínicos robustos, com resultados consistentes de eficácia e segurança. 

Como funcionam as vacinas contra a dengue

A QDenga, aplicada em duas doses, teve sua eficácia comprovada pelo estudo de Fase 3, TIDES1, em que foram acompanhados mais de 60 mil voluntários por sete anos em um ensaio randomizado e duplo‑cego. Trata-se de um método padrão-ouro para reduzir vieses nos resultados, uma vez que os participantes são sorteados em dois grupos e não sabem se estão recebendo a vacina ou placebo. Os resultados mostraram eficácia de 74,3% contra casos sintomáticos e mais de 90% contra hospitalizações. A eficácia por sorotipo foi de aproximadamente 75% para DENV‑1, 95% para DENV‑2, 48% para DENV‑3 e 70% para DENV‑4. A vacina é indicada para pessoas de 4 a 60 anos, com prioridade de imunização no SUS para adolescentes de 10 a 14 anos em áreas de maior incidência.

A Butantan-DV se diferencia por ser aplicada em dose única. O ensaio clínico DEN-03-IB3, de Fase 3, conduzido no Brasil com 16.235 participantes, demonstrou eficácia global em torno de 75% contra a dengue sintomática e mais de 90% contra as formas graves da doença. A eficácia por sorotipo foi de 73% para DENV‑1 e 55,7% para DENV‑2; não foi possível estimar a eficácia para DENV‑3 e DENV‑4 devido à baixa circulação desses sorotipos durante o estudo. Não foram registradas hospitalizações entre os vacinados durante o período analisado. A vacina pode ser administrada em pessoas entre 12 e 59 anos. Após aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Butantan-DV vem sendo utilizada no SUS desde fevereiro de 2026, com início da imunização de 1,3 milhão de doses a profissionais de saúde da Atenção Primária e adultos de 59 anos, com expansão prevista para as demais faixas etárias conforme a produção.5.

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Caixa da vacina Butantan-DV- Foto: Comunicação Butantan

 

A solidez dos resultados de ambas as vacinas está diretamente ligada ao rigor metodológico dos estudos, tendo gerado as evidências exigidas pelas agências regulatórias para a aprovação de imunizantes. A randomização garante que as diferenças entre grupos sejam atribuídas à vacina e não a outros fatores; o cegamento evita interferências na avaliação dos efeitos; e a inclusão de um grande número de participantes permite estimar a eficácia com mais precisão e a demonstrar a segurança da vacina, uma vez que permite a identificação até mesmo de eventos adversos raros. É importante ressaltar que não foram observados eventos adversos significativos associados às vacinas QDenga e Butantan-DV.

Perspectivas futuras

Desenvolver uma vacina tetravalente para prevenir a dengue é complexo porque os quatro sorotipos exigem respostas imunes igualmente fortes, evitando competição entre eles e respostas parciais que possam aumentar o risco de doença. Nesse sentido, ainda existem lacunas importantes como a dificuldade de estimar a eficácia contra todos os sorotipos, especialmente DENV-3 e DENV-4, que tiveram baixa circulação em vários períodos dos estudos. 

A avaliação da efetividade em cenários reais e em regiões com diferentes padrões de circulação viral também é esperada nos estudos de Fase 4, que buscam confirmar, em condições de uso cotidiano, o desempenho observado nos ensaios clínicos. Também são necessários estudos para compreender melhor a duração da proteção, o desempenho em populações pouco representadas (como gestantes, idosos, imunossuprimidos e pessoas com múltiplas comorbidades) e a resposta em indivíduos soronegativos.

Com QDenga e Butantan-DV disponíveis na rede pública, o Brasil passa a contar com ferramentas adicionais, validadas pela ciência, para reduzir casos, hospitalizações e mortes por dengue. Esse avanço é resultado de anos de investimentos e pesquisa que representam a convergência entre inovação científica e políticas públicas de saúde baseadas em evidências.

 

Links para “Saiba mais...” 

1. TAKEDA. Dossiê de Avaliação de Tecnologias em Saúde Preparado para a Conitec: QDenga (Vacina dengue 1, 2, 3 E 4 – atenuada) indicada para a prevenção de dengue em indivíduos dos 4 aos 60 anos de idade. 2023.

2. BRASIL; MINISTÉRIO DA SAÚDE; SECRETARIA DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO E DO COMPLEXO ECONÔMICO-INDUSTRIAL DA SAÚDE; DEPARTAMENTO DE GESTÃO E INCORPORAÇÃO DE TECNOLOGIAS EM SAÚDE; COORDENAÇÃO-GERAL DE AVALIAÇÃO DE TECNOLOGIAS EM SAÚDE. Relatório de Recomendação: vacina dengue tetravalente (atenuada) para a prevenção de infecção causada pelo vírus da dengue e suas complicações. nº 871. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 123 p.

3. KALLÁS, E. G. et al.. Live, attenuated, tetravalent Butantan-Dengue Vaccine in children and adults. The New England Journal of Medicine. 2024, v. 390, n. 5, p. 397-408. doi: 10.1056/NEJMoa2301790.

4. BRASIL; MINISTÉRIO DA SAÚDE; SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE E AMBIENTE; DEPARTAMENTO DO PROGRAMA NACIONAL DE IMUNIZAÇÕES. Guia técnico-operacional da vacina dengue atenuada do Instituto Butantan. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 35 p.
5. BRASIL; MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde define estratégia de imunização contra a dengue com nova vacina do Butantan [Internet]. 2025.

 

 

 

Fonte: Assessoria de Comunicação Ceti-Saúde UFG

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