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Ceti-Saúde defende vigilância preditiva no enfrentamento do El Niño

Em 06/10/26 16:03. Atualizada em 06/10/26 16:25.

Com calor acima da média previsto para Goiás até o início de 2027, centro propõe cruzar dados para prever onde e quando as doenças vão aumentar

Texto: Isis Borges

Relatório El Niño 2026/2027

Clique aqui e leia o relatório na íntegra.

O El Niño que se forma no Oceano Pacífico deve chegar a Goiás como calor intenso, chuva irregular, fumaça e mais pressão sobre hospitais e unidades de saúde. O alerta está na Nota Informativa Conjunta “El Niño em Goiás 2026/2027”, elaborada por pesquisadores de cinco Centros de Excelência fomentados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), entre eles o Centro de Excelência em Tecnologia e Inovação em Saúde (Ceti-Saúde UFG). Para o Ceti-Saúde, o fenômeno precisa ser encarado não só como um evento climático, mas como uma emergência de saúde pública.

O El Niño se trata do aquecimento anormal das águas do Pacífico tropical, que altera chuvas e temperaturas em várias partes do planeta. Pela intensidade prevista ser um recorde, a imprensa tem utilizado a expressão “Super El Niño”, uma denominação não oficial. 

Segundo os centros de previsão climática, a chance de ele seguir ativo até o início de 2027 é de 100%, e os modelos apontam para um evento de grande potência. Em Goiás, isso significa de 70% a 90% de probabilidade de temperaturas acima da média entre novembro e fevereiro, enquanto a chuva deve ficar abaixo do normal em boa parte do estado.

Em razão dessas mudanças na temperatura e precipitação, o fenômeno pode afetar a produção de alimentos, a infraestrutura de transportes, o setor energético, as atividades econômicas em geral, e até mesmo a saúde.

O calor extremo provocado pelo El Niño pode causar desidratação e agravar doenças do coração, dos pulmões e dos rins. Ao mesmo tempo, a fumaça decorrente das queimadas no cerrado neste período está associada a mais internações e mortes por problemas respiratórios e cardiovasculares. 

Além disso, temperatura e chuva também interferem na transmissão da dengue e de outras arboviroses e até no número de acidentes com escorpiões. Como consequência, cresce a procura por atendimentos, leitos, medicamentos e insumos.

E os sinais já começaram a aparecer: em agosto de 2026, Goiás registrou 424 focos de fogo ativos, 9% a mais que no mesmo mês de 2025. Como os efeitos não devem atingir todas as regiões da mesma forma, saber onde e quando agir faz toda a diferença.

Vigilância preditiva

Hoje, a vigilância em saúde costuma se basear na detecção, ou seja, o alerta só soa quando os casos já estão subindo. O Ceti-Saúde propõe dar um passo adiante e usar a ciência para antecipar o problema, de modo que as decisões sejam tomadas antes da crise, e não durante ela.

Para isso, o centro sugere reunir em uma mesma análise dados de áreas diferentes: temperatura, umidade, chuva, focos de calor, área queimada e qualidade do ar, além de casos notificados, vírus em circulação e os primeiros sinais de pressão sobre os serviços. Cruzadas, essas informações ajudam a estimar quais doenças devem aumentar, onde, quando e com que impacto sobre o atendimento, trabalhando de forma integrada às iniciativas da Subsecretaria de Vigilância em Saúde (SUVISA), pertencente à Secretaria Estadual de Saúde (SES-GO). 

O ponto de partida seriam as séries históricas de cada município, que mostram o que é esperado para cada época e, assim, revelam quando internações e mortes fogem do padrão. Em seguida, modelos estatísticos consideram o tempo entre a exposição ao calor ou à fumaça e o adoecimento. Já análises espaciais podem apontar áreas críticas e municípios-sentinela, onde os sinais podem aparecer mais cedo e servir de alerta para toda a região.

Benefícios para o SUS

Com a previsão em mãos, os gestores ganham tempo. Dessa forma, é possível reforçar a vigilância, preparar unidades e equipes, distribuir medicamentos, soros e outros insumos e reorganizar os fluxos de atendimento antes do pico de demanda. Nesse processo, o centro destaca o papel da atenção primária, que precisa estar preparada e bem articulada com o restante da rede.

Essa abordagem, aliás, já mostra resultados em Goiás. Um estudo do Ceti-Saúde sobre a dengue no estado entre 2012 e 2025 revelou que a chuva ajuda a delimitar os períodos epidêmicos. O tamanho de cada surto, no entanto, depende também dos sorotipos em circulação e de quantas pessoas ainda estão suscetíveis. Por isso, a vigilância genômica, que identifica a chegada e a substituição de linhagens do vírus, é peça central da proposta.

Assim, para o Ceti-Saúde, o El Niño 2026/2027 também é uma oportunidade. Isso porque a preparação para este episódio pode servir de base para consolidar em Goiás uma estrutura permanente de monitoramento, previsão e resposta aos efeitos de eventos climáticos extremos sobre a saúde, incluindo o acompanhamento inédito da qualidade do ar nas cidades mais populosas. 

Sobre a nota

Além do Ceti-Saúde, a nota reúne pesquisadores dos Centros de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado), em Segurança Hídrica do Cerrado (Cehidra Cerrado), em Genética e Genômica (CEGGen) e Agricultura Exponencial (CEAGRE), todos ligados à Universidade Federal de Goiás (UFG), à Universidade Estadual de Goiás (UEG), à Pontifícia Universidade Católica (PUC Goiás) e ao Instituto Federal Goiano (IF Goiano). O documento analisa ainda os impactos e os riscos do El Niño na segurança hídrica, na agricultura e nas queimadas.

 

Fonte: Assessoria de Comunicação Ceti-Saúde UFG

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